Prevenção da Violência baseada no Género (VBG) em Emergências

Moçambique, março 2019. 

 A cidade da Beira passa por um dos maiores desastres naturais (ciclone Idai), onde 1.8 milhões de pessoas são afetadas, incluindo cerca de 400.000 deslocados, acolhidos em centros de evacuação e abrigos improvisados. É no contexto da Missão Embondeiro (Missão Humanitária de Emergência) organizada pela Cruz Vermelha Portuguesa, que integro uma das equipas de saúde mental e apoio psicossocial. 

É através da ação humanitária que se prestam os serviços que salvam vidas e facilitam a recuperação das comunidades afetadas por desastres naturais e outras emergências complexas.

“Hoje quero falar-te da V. que conheci neste contexto de crise. Uma criança de 9 anos, que tal como muitas outras da sua idade, foi vítima direta desta emergência. O ciclone destruiu-lhe a casa de família, os pais ficaram desempregados, e ela a mais velha de cinco irmãos, ficou responsável por tomar conta deles. 

As crises podem exacerbar as desigualdades de género pré-existentes.

Quando atuamos nestes cenários, sabemos que as crises afetam as raparigas, os rapazes, as mulheres e os homens de forma diferente, devido às suas diferenças de estatuto e do seu papel nas comunidades. Sabemos, também, que as pessoas mais vulneráveis à violência em geral, são as mulheres e crianças.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) explica que a violência baseada no género pode incluir: violação e tentativa de violação, violação conjugal, abuso sexual, exploração sexual, casamento precoce forçado, violência doméstica, tráfico e mutilação genital feminina. 

A crise não causa a violência em si, mas pode alterar a gravidade e os tipos de violência sofrida. 

“V., neste contexto, ficou mais vulnerável ao abuso e à exploração infantil. Partilha connosco que por querer ajudar os pais, e contribuir com algum dinheiro para as despesas, acaba por se envolver em encontros sexuais em troca de dinheiro. Percebi que a situação já era do conhecimento dos amigos e de alguns familiares”.  

Os atores humanitários, não têm o trabalho facilitado, isto porque todos os esforços para lidar com a violência baseada no género, tem sido historicamente confrontada com o silêncio, tabus sobre a divulgação, uma cultura de culpabilização das vítimas e atitudes que a normalizam. 

Nesta missão, houve a oportunidade de capacitar agentes da comunidade sobre a importância do tema “violência baseada no género durante as emergências” e de enquadrarmos as crianças e jovens em programas e iniciativas mais amplos de integração da perspetiva de género. 

A educação é um direito humano, mesmo em emergências, e pode ter uma maior importância em momentos de crise.  A educação pode quebrar ciclos de violência e conflito, redefinir normas de género e promover tolerância e reconciliação.

Com o suporte e apoio das equipas no terreno, a história da V. teve um final diferente.  Após um mês de missão, na despedida, demos mãos, e prometemos manter o contato. 

– “Seguimos juntas V. ” , disse-lhe. Sorriu e prometeu seguir o seu maior sonho, ser advogada.